ONU - Morte de Alioune Beye
O representante do secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU) para Angola, Alioune «Meitre» Beye, e acompanhantes morreram na queda de um avião em que seguiam, na passada sexta-feira, dia 26 de Junho, à noite, de Lomé para Abidjam.
A trágica morte de «Meitre» Beye, só confirmada um dia depois, desencadeou uma grande onda de consternação.
Beye encontrava-se numa digressão por cinco países africanos - Gabão, Togo, Costa do Marfim, Burquina Faso e São Tomé e Príncipe - para tentar salvar o processo de paz angolano.
Em Portugal, o Presidente da República, Jorge Sampaio, manifestou «profundo pesar» pela morte do representante especial do secretário-geral da ONU em Angola, realçando que Beye «dedicou à reconciliação nacional do povo angolano os últimos anos da sua vida».
Jorge Sampaio manifestou, igualmente, «profundo pesar» pela morte dos que acompanhavam Beye «nesta sua última viagem», nomeadamente «o capitão Álvaro Costa, distinto oficial da GNR» que, como seu ajudante de campo, «também perdeu a vida ao serviço da paz em Angola».
O primeiro-ministro, António Guterres, também manifestou profunda consternação pela morte do diplomata maliano e do oficial português.
«Foi com extrema consternação que o Governo português tomou conhecimento do acidente que vitimou o representante especial do secretário-geral das Nações Unidas para Angola», diz Guterres em telegrama enviado a Kofi Annan.
«Durante mais de cinco anos, Beye estabeleceu estreita colaboração com Portugal tanto no seio da troika como no contexto da comissão conjunta e igualmente ao nível do Conselho de Segurança», acrescenta a mensagem.
O comandante militar da MONUA e os três países observadores do processo de paz angolano - Portugal, EUA e Rússia - manifestaram, em Luanda, «grande choque e tristeza» pela morte de Alioune Blondin Beye.
Em reacção oficial conjunta, apelam ao governo de Angola e à UNITA para «demonstrarem a sua prontidão em honrar todos os seus compromissos assumidos ao abrigo do Protocolo de Lusaca».
O ministro dos Negócios Estrangeiros português, Jaime Gama, que se encontra em Bissau, manifestou também «grande consternação» pela morte de Beye, que considerou «uma grande personalidade da política africana».
«Ele desempenhou com grande notoriedade e sentido de responsabilidade as suas funções de mediador no processo de paz em Angola», disse Jaime Gama, que também lamentou «profundamente» a morte do oficial português.
Por seu lado, o embaixador de Portugal em Angola, Duarte Ramalho Ortigão, classificou, em Luanda, a morte de Alioune Beye como «uma perda enorme para o processo de paz angolano».
Destaque-se que o avião em que seguia o representante especial do secretário-geral da ONU para Angola estava ao serviço da MONUA e era pilotado por dois sul-africanos.
A aeronave, um Beechcraft 200, levava a bordo oito pessoas, seis das quais ao serviço da MONUA.
Com Beye seguia o português capitão Álvaro Costa, da GNR, que era o seu ajudante de campo, o senegalês Moktar N'guey, seu porta-voz, dois conselheiro políticos, Adjoye Kofi, do Togo, e Dessande, do Chade, e um capacete azul nigeriano da sua segurança pessoal, cuja identidade ainda é desconhecida.
O avião desapareceu dos radares cinco minutos antes de aterrar no aeroporto de Abidjam.
As qualidades de Beye e o seu profundo conhecimento dos assuntos africanos levou o então secretário-geral da ONU Butros-Ghali a escolhê-lo em 1993 para mediar as complicadas negociações do processo de paz angolano que culminaram na assinatura dos acordos de paz de Lusaca em 1994.
Nascido a 8 de Janeiro de 1939 em Bafoulabé, região de Kayes, no Mali, Beye estudou direito na Universidade de Dijon, França, e no Centro de Estudos e Investigação em Direito Internacional e Relações Internacionais de Haia, Holanda, regressando depois ao Mali, onde foi professor de Direito Internacional.
Posteriormente, foi nomeado chefe do Departamento Jurídico do Governo e, mais tarde, ministro da Juventude, Desporto, Artes e Cultura.
De 1978 a 1986 desempenhou o cargo de ministro dos Negócios Estrangeiros e da Cooperação Internacional e de conselheiro jurídico do Presidente do Mali entre 1986 e 1988.