Teste para detector antimatéria
Cientistas portugueses estão a participar activamente na experiência internacional Alpha Magnetic Spectrometer (AMS), a instalar na estação orbital Alpha, prevista para 2002. O primeiro teste será realizado a bordo do vaivém («space-shuttle») Discovery, este mês, durante dez dias de voo. Trata-se de uma importante iniciativa de cooperação científica e tecnológica internacional, com participação portuguesa.
O Governo dos Estados Unidos possibilitou que este voo experimental do AMS no Discovery fosse associado às comemorações dos 500 anos da Viagem de Vasco da Gama à Índia, através da presença simbólica de uma bandeira portuguesa e de uma gravura retirada do Livro das Armadas, representando a frota do descobridor português.
O lançamento do Discovery deu-se às 23 horas e 10 minutos (hora de Lisboa) do dia 2, no Cabo Canaveral, na Florida. O ministro da Ciência e da Tecnologia, José Mariano Gago, assistiu, a convite da NASA, ao lançamento. Com eles estiveram alguns dos cientistas portugueses que trabalham activamente no AMS.
O lançamento do vaivém foi transmitido em directo para a Expo’98, pelo écran gigante da Praça Sony.
A participação portuguesa no AMS é coordenada pelo Laboratório de Instrumentação e Física Experimental de Partículas (LIP) e conta com o apoio do Ministério da Ciência e da Tecnologia.
O MCT promoveu os contactos multilaterais necessários à cooperação, nomeadamente ao abrigo dos acordos de cooperação luso-americana em matéria de ciência e tecnologia, e financia a parte nacional.
O objectivo fundamental do AMS é a detecção de antimatéria presente no Universo. E não é uma tarefa banal: trata-se de responder a uma das perguntas cruciais da física - onde está a anti-matéria? É que, dizem os modelos teóricos, durante o «Big Bang» (a explosão original da qual deriva o actual Universo) foram criados quantidades quase idênticas de matéria e antimatéria.
Todavia e aparentemente, as partículas de matéria ultrapassam largamente as de antimatéria e a ciência ainda não conseguiu determinar em que percentagem.
Com os equipamentos actuais, apenas se detectou uma proporção de antimatéria na ordem de menos de uma partícula por cada cem mil partículas de matéria. Ora, o AMS conseguirá se dez mil vezes mais preciso que todos os instrumentos até ao momento - ou seja, será capaz de detectar uma partícula de antimatéria em até mil milhões de partículas de matéria.
Adicionalmente, proceder-se-á ao estudo dos espectros de antiprotões positrões e fotões. A observação de eventuais anomalias nestas distribuições pode indicar a presença de matéria escura, cuja existência no Universo se estima em 90 por cento. Mais uma vez, constitui um mistério: devia lá estar, mas não se consegue detectar.
De facto, os cálculos feitos sobre a massa do Universo, nomeadamente na medição da força gravitacional de galáxias distantes, apontam para a existência de uma quantidade de matéria que é 10 vezes superior àquela que é detectável.
Tendo como objectivo o teste em condições reais do desempenho do detector AMS, realizou-se, na passada terça-feira, um voo experimental a bordo do «space-shutlle» Discovery, usando uma versão simplificada do espectrómetro magnético.
Esta missão do vaivém, com uma duração de dez dias, inclui a última atracagem de um «space-shuttle» à estação russa Mir, antes do início da construção da estação especial Alpha.
Durante a missão do Discovery, após uma fase de teste, serão dedicadas ao protótipo do AMS cerca de cem horas.
Na fase de teste inicial, o AMS será comandado a partir do solo, recebendo uma ordem em cada dois segundos.
Paralelamente à recolha de dados científicos, é objectivo deste voo do AMS a bordo do porão do Discovery testar as interfaces de comando dos vários componentes, fazer medições de forma a melhor calibrar e sintonizar o detector AMS na Alpha e verificar e seu modelo térmico.