CARLOS ZORRINHO
Há dois critérios para analisar o inusitado e talvez mesmo inesperado prolongamento do estado de graça do Governo em funções. O mais simples induz-nos a debitar esse êxito em conta do descrédito e da inabilidade das oposições. O mais realista e profundo, cruza esse contexto com a análise objectiva dos eixos estruturantes de uma política que, para o bem ou para o mal, tem sido geradora dum generalizado contentamento.
O Governo da Nova Maioria estruturou o seu discurso e a sua praxis em três vértices fundamentais; rigor, criatividade e sensibilidade social. A cuidada gestão do terceiro vértice constituiu o maior valor acrescentado da governação, já que no que diz respeito à criatividade e ao rigor, bastou ao Governo a lucidez e a coragem de acomodar as características da nossa identidade enquanto povo e as suas regras económicas decorrentes da caminhada para a União Económica e Monetária
Somos um povo de gente espontânea, adaptativa e criativa, vulgo «desenrascada», ou seja, temos as características mais fadadas para enfrentar os desafios da era da incerteza. Educar, informar e valorizar essa capacidade inata é uma prioridade óbvia que o Governo transformou em paixão.
Mas um povo de adaptativos e espontâneos é por natureza um povo avesso à contenção e ao rigor, sobretudo quando se propõe trocar sacrifício imediato por benefício futuro. Neste domínio, para além da determinação pessoal do Primeiro-ministro e da sua equipa económica e financeira, Portugal contou com a preciosa sinalização imposta pelos critérios de convergência nominal, induzindo índices de crescimento sustentado como de há muito o País não usufruía.
Se é verdade que no domínio da criatividade e da racionalidade económica, mais do que eficaz, o Governo foi eficiente no aproveitar das oportunidades, no domínio social a sua acção teve o mérito de traçar opções ideológicas e políticas fortes, centradas na eficácia das medidas para resolver questões concretas.
A diferença qualitativa começou por ser marcada no estilo da governação.
Muitos se apressaram a desvalorizar o designado «diálogo» como método político. Foram os que não entenderam o seu papel decisivo na melhoria da auto-estima dos protagonistas e do seu envolvimento no projecto comum.
Face ao distendimento e à expectativa criada com um novo método político, o reforço dos mecanismos de protecção social, designadamente nas políticas de emprego, de segurança social e de combate à exclusão, criaram o caldo de cultura necessário à aplicação bem sucedida do «rigor económico com consciência social».
A nova esquerda que Guterres e o seu Governo personificam é uma esquerda economicamente responsável e socialmente sensível que aposta na capacidade e motivação de cada indivíduo para a construção do bem-estar colectivo. A sua prática é a melhor resposta para os que legitimamente se interrogam sobre o que é governar à esquerda neste dealbar de milénio.
E o que é? É, obviamente, valorizar o indivíduo através da integração, da educação e da formação, aumentar o potencial competitivo da economia instalando regras claras e saudáveis e reforçar a confiança dos cidadãos com políticas sociais justas, eficazes e equilibradas.
É esta a geometria política em curso no Portugal de 97, ou seja, a política do triângulo! Um segredo de polichinelo que ninguém pelas oposições parece à altura de desvendar. E assim sendo... uma longa vida. Nova Maioria!
(Artigo publicado no «Diário Económico»)
FRANCISCO M. P. FONENGA
Neste últimos dias, confrontaram-se os olivicultores do concelho de Campo Maior, com uma situação de abaixamento brusco do preço de azeitona para conserva.
O problema não é novo. Contudo, do modo como este ano ocorreu nunca antes havia sucedido, tendo o preço de venda do produto decaído num só dia cerca de 30$00/kilo.
Como é do conhecimento do mundo agrícola, os olivicultores de Campo Maior direccionaram a plantação dos seus olivais para a produção de variedades com o máximo aproveitamento para a Indústria Conserveira.
Sendo unanimemente reconhecido o excelente tratamento que é prestado ao olival, não é menos verdade que os custos daí resultantes aliados ao tipo especifico da apanha (totalmente manual e limpa de folhas e outros resíduos da árvore), elevam substancialmente os encargos de exploração, pelo que oscilações abruptas do preço causam transtornos significativos na economia dos olivicultores.
É evidente que a causa próxima desta conturbação de preços da azeitona resulta do livre mercado comunitário e da abertura das fronteiras, estendendo a vizinha Espanha até nós a oferta e a procura, aquela mais do que esta, dos produtos sazonais que, desde que respeitados os índices mínimos de qualidade estipulados pela UE, poderão circular livremente nos mercados internos dos Estados-membros. Sendo as azeitonas de mesa um dos produtos agrícolas que não podem ser subvencionados pelos Estados membros, é evidente que sempre que a Espanha tenha excesso de produção nos irá inundar de produtos, desestabilizando o mercado interno. Mas como, poder-se-á perguntar, sabendo nós que a preparação do olival e a colheita da azeitona são similares, com a agravante dos salários dos trabalhadores agrícolas serem mais elevados? Porque, segundo se diz, em surdina e sem provas, os governos regionais e o governo central espanhóis atribuem ajudas aos agricultores contrariando as directivas comunitárias. Não sendo totalmente verdade, também não é totalmente falso, isto é, os olivicultores são, de facto, apoiados, mas de forma indirecta, já que o sistema organizativo dos olivicultores espanhóis, em cooperativas e uniões, permite aos órgãos institucionais conceder-lhes fundos financeiros internamente, mesmo que a finalidade seja diferente ou pretensamente não complemente o preço final do produto.
Os olivicultores de Campo Maior já perceberam que o associativismo poderá ser a solução para que casos como o deste ano não se repitam. É agora possível, ultrapassados que foram os tempos da constituição e gestão de cooperativas e de outros organismos de classe, pensados unicamente no âmbito ideológico ou partidário, partir para a criação de um organismo congregador de todos os olivicultores do concelho que possa vir prestar todos serviços inerentes aos diversos sectores da fileira (produção, transformação, comercialização) podendo, com uma gestão correcta e isenta, contribuir para a regulamentação dos preços e defender os interesses dos olivicultores.
Como nota final devo dizer que, quer o Ministério da Agricultura quer a Câmara Municipal de Campo Maior estão sensibilizados para apoiar e ajudar os olivicultores a ultrapassar os problemas que agora os afligem.
Acredito plenamente que, com a conjugação de esforços das entidades oficiais e a vontade e empenhamento da comissão representativa dos olivicultores, se vai conseguir atingir o objectivo que todos se propõem alcançar.
IGLÉSIAS COSTAL
Muitos dos problemas que geram conflitualidade, podiam ser evitados com antecipação, se houvesse percepção dos mesmos. Para isso a informação é essencial. É também com a trofologia e o cruzamento dessa mesma informação e com a possibilidade dos meios de comunicação que ela é possível. No mundo relacional, abrangente e globalizante o transcender tem de ser uma realidade. Ir além do que é possível entender, será uma necessidade da humanidade cada vez mais constante.
O conceito tempo está ultrapassado. O tempo de há cem anos, duzentos anos, não é de facto o tempo do fim deste século.
A evolução psicológica do indivíduo foi-se moldando de uma forma muito normal à situação. Contudo no seu subconsciente veio trazer alterações significativas à sua vida.
O tempo do relaxamento da contemplação é mais temporal, ou seja é mais inquieto, menos sossegado, dado que o entendimento dos assuntos, mesmo que não sejam entendíveis, eles estão no subconsciente e por isso, uma ansiedade maior e mais constante.
Para este tipo de inquietação substantiva, veio contribuir a comunicação com todo o seu esplendor de meios, como a TV, telefone, rádio, computadores e toda a sua arquitectura hoje existente e, claro, o veículo da informação e sua gestão.
A informação já existia, desde os tempos mais remotos. Podemos lembrar os anéis do fumo dos primitivos povos da América do Norte aos indígenas africanos com os seus sons que atravessavam o Continente Africano passando pelo mensageiro a pé ou a cavalo, até aos espelhos com os seus reflexos informativos. Hoje os satélites e os poderosos meios que a tecnologia contemporânea nos facilita.
Desde os tempos mais remotos o que substancialmente variou foi a rapidez, a qualidade e a quantidade da informação e é aqui que reside a possibilidade trofológica qualitativa da percepção. O indivíduo torna-se núcleo receptor consciente ou inconsciente.
Sem dar por isso, todo o poder de análise está a funcionar a gerir e a digerir quantidades de informação que se tornará objectiva e subjectiva, onde os estímulos produzirão reacções perante o exterior e no interior de cada um.
A rapidez informativa permite-nos também podermos agir de forma a que os problemas tenham solução mais conveniente.
No campo de economia o exemplo das bolsas de valores na compra e venda de acções e matérias-primas, na saúde na possibilidade das terapias no ante e pós-operatórias, na meteorologia com as previsões para mais de três dias com grande margem de certeza, na sismologia ainda com alguma incerteza mas já com bons índices de possibilidade de ajuda, na vulcanologia, etc. E também na mente humana com a adaptabilidade para novas situações comportamentais na área da curiosidade e novidade perante os problemas e os outros seres.
Perante esta gigantesca onda de estímulos tecnológicos informativos, estamos também perante a epistemologia da informação.
É uma oportunidade de estudo que não podemos deixar de fazer, permitir-nos-á o entendimento de fenómenos que são da maior importância para o ser humano de hoje e do futuro. Onde a reacção a estímulos por influências abrangentes poderão ser sublimadas, evitando situações de risco entre as partes no conflito ou não conflito.
As formas de captação de informação são as mais diversas, no entanto não podemos de deixar de estar atentos às formas, novas, da não informação. Este, é um problema que irá obstaculizar a percepção ou, seja, a contra-informação perceptiva.
Hoje, os meios de alheamento informativo que estão ao dispor dos produtores de noticías é enorme.
Como exemplo os países onde a informação televisiva de telejornais não transmite a informação internacional. Isto dificulta a entender e a conhecer o que se passa em outra regiões, continentes e países.
É uma forma compulsiva de censura que intranquiliza.
É claro que é possível contrariar este processo com as novas tecnologias (parabólicas, internet, etc.), mas em países onde a democracia não funciona ou é musculada é perigoso, para a população.
Aqui e nestas situações, todo o ambiente perceptivo fica prejudicado relativamente a outros países.
Um mundo complexo e tanto mais complexo consoante for mais multidisciplinar,
a informação deverá ser mais livre para facilitar
o conhecimento e, portanto, uma melhor vivência planetária.
Ficando de fora a informação tecnológica produtiva,
essa sim, deverá ser resguardada por quem a investiga como uma forma
de inovação para a competitividade salutar e empreendedora
que procura satisfação e facilitação na vida
quotidiana das populações. Toda a informação
e sua trofologia poderá promover uma percepção empírica,
científica e filosófica da empatia perante os outros e o
mundo global.